Nina Simone - Resenha do documentário "What Happened, Miss Simone?"


Hoje eu assisti o documentário "What Happened, Miss Simone?" e confesso que estou emocionada.
Eu não sei por onde começar a falar, não sei se consigo escrever tudo o que estou sentindo nesse momento. 
Nina Simone, ou Eunice, como era seu nome de batismo teve uma história de vida "daquelas", todos precisam conhecê-la.

Ela só tinha o sonho de ser a primeira pianista clássica negra dos Estados Unidos
Parecia simples o seu desejo, mas ela cresceu na pior época de segregação racial do país. Desde os 4 anos de idade tocava piano na Igreja, até que um dia uma professora de piano a viu tocar e resolveu lhe dar a oportunidade de ensinar piano e piano clássico em sua escola. Ela cresceu, e era boa. Ela era muito boa. Mas ao tentar entrar na universidade não foi aceita. Só depois que Nina se deu conta que tinha sofrido um ato de racismo.
Naquela época não se falava sobre racismo em casa, havia medo. Todos abaixavam a cabeça porque quem reclamasse da situação era morto. O racismo precisava ser mantido em silêncio.
Mas Nina ainda tinha um sonho, e não tinha dinheiro. E assim como todas nós, precisava se virar de alguma forma e então começou a tocar piano em bares. Mas chegou um momento em que o dono do bar queria que ela cantasse ou caísse fora. Foi aí que cantou pela primeira vez. Perfeita.
Era essa a definição do que ela era. Começou a conquistar o público e fazer um pequeno sucesso...a coisa foi aumentando... aumentando... ela lançou um disco, ela teve seu hit, ela foi pra programas de Tv, a Nina era uma artista famosa.

Resumi bem superficialmente a primeira fase de sua vida. Você precisa entender que a Nina nessa época, era o bibelô perfeito de pessoas brancas. Ela tinha um puta talento, ela era carismática, ela fazia o que todos queriam que ela fizesse. A sociedade branca e racista a aceitava porque ela cantava bem, e cantava letras que serviam pra eles.
Nesse período, ela encontrou Andrew, eles se casaram tiveram uma filha e ele largou o emprego na polícia para virar empresário dela. 
Me recuso a dar detalhes a mais sobre esse cara. Tudo que você precisa saber é que: ele gerenciou os negócios dela, alavancou a carreira dela, e também a espancava, a estuprava, a manipulava e nas entrevistas com a cara mais sínica do mundo dizia que a Nina acabou com tudo que ele havia construído.

Sim. Ela era abusada por ele. Sim, ela foi estuprada por ele. Sim, ela levava socos dele. Sim, ela amava ele. Nina estava num completo relacionamento abusivo, mas não se deu conta disso antes.

Ela não se calou diante do que precisava ser dito
Mesmo com esse relacionamento difícil com o marido, e aparentemente a vida artística perfeita, parecia que faltava algo. Foi então quando o episódio de quatro crianças negras assassinadas em um atentado na Igreja em Alabama fez a Nina soltar a voz!

Foi naquele momento que Nina decidiu o que ela queria pra vida dela. O país estava em guerra. Ou ela continuava a sua carreira servindo a Casa Grande, sendo um verdadeiro espetáculo para a sociedade branca racista, ou ela se empoderava e dava força ao movimento negro. Nina não pensou duas vezes em se empoderar. Contava nas músicas a sua realidade, o sofrimento de sua vida, o sofrimento de um povo. Fazia música de preto pra preto, fazia música pra reconhecermos nossas raízes!
É bem previsível de imaginar o que rolou, certo? As portas se fecharam para a Nina. COMPLETAMENTE!
Continuou até o fim com o seu propósito, acreditava que era possível fazer uma revolução.

O mais engraçado, é que podemos fazer uma pequena comparação com a atualidade:
- Nina sempre foi a queridinha da sociedade branca por sua bela voz e letras legais.
- Beyonce sempre foi a queridinha da sociedade branca por sua bela voz e letras legais.
- Nina lança uma nova música assumidamente em apoio ao movimento negro e os racistas piram, acabam com toda a oportunidade dela na vida.
- Beyonce lança uma nova música assumidamente com orgulho de sua raiz negra, e as feministas brancas racistas piram, dizem que não tinha necessidade, a galera acha o maior exagero, acha que a Beyonce enlouqueceu, ÇOCORRO, QUEEN BEE É NEGRA!!
E o que vão fazer agora? Fechar as portas pra maior diva do hip hop/pop de todos os tempos? Em pleno século 21? HAHAHAHAHAH não! Os programas racistas vão ter que aturá-la cantando Formation no estúdio. A Beyoncé já tem uma reputação. Já artistas negros que falam sobre negritude desde o princípio de sua carreira são apagados pela indústria musical e mídia. Nem sabemos quem são, e quando sabemos, são taxados de loucos, exagerados e radicais. Exemplo: Azealia Banks.
Em pleno 2016, falar abertamente sobre temas raciais, quando não se é muito famoso, ou não é branco, é visto como exagero.
Em 1963, quando o racismo era na lata, a segregação rolava solta, e brancos só se misturavam com negros pra pagarem de bonzinhos, a Nina falar sobre racismo abertamente foi vista como radical.
Depois dessa música, ela não fez mais uma, mas sim várias músicas que falavam sobre racismo, revolução racial e empoderamento negro.

Participou do grupo Panteras Negras e acreditava que o negro deveria fazer o que fosse necessário para conquistar a sua liberdade, e isso podia incluir o uso da violência. Ela reafirmou esse discurso após Martin Luther King ter sido assassinado, um dos líderes do movimento negro que acreditava na paz e serenidade para com os brancos, e que repudiava atos violentos.
Nina disse: Eu não sou não violenta, ok?

Ninguém a compreendia
Ao mesmo tempo que ela era uma mulher forte, toda essa situação a desgastava. Ela estava perdendo todo o seu dinheiro, ninguém mais a contratava com medo dela cantar temas raciais e ela começou a ter sérios problemas de depressão, transtorno de bipolaridade e pensamentos de suicídio.
No auge do seu desespero, ela largou tudo e foi morar na Libéria, África. Ela afirma terem sido os melhores anos de sua vida. Ela havia encontrado a felicidade.
É impressionante como no documentário, os entrevistados, por mais que fossem amigos da Nina, se referiam a ela como se ela fosse uma espécie de louca varrida simplesmente por correr atrás de sua felicidade, por viver coisas difíceis e não saber lidar com isso.
Todos os transtornos que a Nina teve, foi culpa do marido, foi culpa da sociedade racista. Ela precisava de ajuda, e tudo que as pessoas sabiam dizer era "Cadê a nossa Nina de antes?".

Mas os seus dias de felicidade foram se acabando! Ela estava sem grana alguma, levou sua filha pra morar com ela, mas acabava maltratando-a e as vezes a humilhando em público até o dia em que ela fugiu pros Estados Unidos e foi morar com o pai. Nina já estava sofrendo as consequências graves das marcas do seu passado, e isso causou o transtorno de bipolaridade, que só foi compreendido pela filha futuramente.
Ela tava ferrada, precisava de grana, então começou a viajar novamente na tentativa de fazer shows, mas ela não estava mais conseguindo cantar da mesma forma que cantava. Ela parou em bares de quinta categoria por alguns trocados e morava num apartamento horrível. Nina precisava de ajuda.
No fim, amigos conseguiram que ela voltasse a ativa, ela foi diagnosticada com bipolaridade, tomava remédios, fazia shows, recuperou seu sucesso, mas a pergunta fica: ela tava feliz?
No documentário é possível compreender que ela apenas cedeu ao que precisava pra evitar mais problemas.

E foi isso. As pessoas reconheceram o talento e a força da Nina tarde de mais, talvez ela tenha partido sem nem saber a grande mulher que foi.