A mulher negra que vos fala

Ilustração de Janis Souza

A cada dia que passa, é colocado à prova a minha resistência como mulher negra. E isso em todos os sentidos. 
Em todos os sentidos possíveis.

Eu tô cansada de o tempo inteiro ter que explicar pras pessoas porque eu luto, ou pelo o que eu luto. E o mais desgastante é ter que explicar isso pras pessoas que se dizem politizadas. 
Eu tô cansada de ter que explicar pro branco metido a descontruidão que ele me oprime.
Eu tô cansada de ter que explicar pra branca sinhá feministona da porra que ela me oprime.
Eu tô cansada de ter que explicar pros caras negros que mesmo eles morrendo a cada 23 minutos eu sou espancada pelos mesmos a cada 11.
Eu tô cansada.

Confesso que de homem branco cis hétero, já espero o pior. Não me surpreendo se ele é racista ou machista comigo. Não dá pra esperar muito, acabo sempre me decepcionando, por isso evito me relacionar, ainda que tenham barba e digam "gratidão".

A mulher branca entra na minha vida de várias formas.
O feminismo é uma delas. Nos diferenciamos pela raça, mas temos em comum o gênero.
Mesmo eu lutando pelas mulheres negras primeiro sempre (por questão de urgência, não preferência[ou talvez preferência mesmo, qual o problema em escurecer nossas relações, né?]), ainda sim, a minha luta inclui as mulheres brancas, porque são mulheres e isso implica diversas desvantagens sociais.
O problema é que estou cansada de feministas brancas não vendo a urgência de lutar por negras periféricas. De saber de cor e salteado as estatísticas de violência contra a mulher na hora de escrever no cartaz da passeata em Copacabana, mas omitir a informação que a maioria das mulheres que sofrem essa violência são mulheres negras faveladas.
Eu tô cansada de feministas brancas sendo transfóbicas, sendo que a maioria das mulheres trans são negras, e a porra dessa luta é minha também.

A mulher branca entra na minha vida de várias formas.
Como por exemplo, ter um núcleo familiar onde a pessoa que eu mais amo no mundo é branca: minha mãe.
Eu cresci e convivi numa família mestiça, e isso tornou a minha vivência como mulher negra muito diferente.
Fui criada pra amar todos por igual, porque "todos somos iguais", mas não fui criada pra entender a verdadeira importância do meu papel na sociedade. Não fui criada pra encarar os problemas que enfrento hoje, pra lutar contra as dores que simplesmente caíram no meu colo.
Não fui criada pra aprender os problemas sobre a negritude. Mas cresci vendo de camarote o que era um relacionamento abusivo. Dos mais leves, confesso. Problemas que podiam ter sido resolvidos, e talvez tenham se resolvido. Mas a submissão da minha mãe naquele relacionamento ainda que ela fosse branca me faz entender com mais facilidade o porque eu tenho preferências, mas não excluo da minha luta de gênero as brancas. E me faz entender porque o homem negro não se exclui do machismo.
Claro, tô falando de um homem negro não politizado. Meu pai com 40 anos de idade chegou pra mim e disse: eu nunca sofri racismo.
Eu fiquei sem reação ao ouvir isso. Meu pai, homem negro de pele escura, o que vivia ouvindo piada no quartel de que no escuro não dava pra vê-lo, disse: "eu que sou eu, nunca sofri racismo. Por que você tá levantando essa bandeira de racismo?"

Sabe quando caiu a ficha de que eu era negra? Quando meu cabelo começou a cair por conta da química. Eu percebi o quanto perdi minha infância num processo de embelezamento padrão europeu ou o que é aceitável no mínimo pela sociedade brasileira. Escova desde nova, relaxamento, progressiva, permanente afro, implante... tudo só pra ficar bonita, e com um cabelo domado.
Aos 19 anos eu decidi não fazer mais nenhuma química, estava com o cabelo curtinho, mas era o meu cabelo que ali crescia, minha mãe perguntou: 
- Você não vai fazer nada??? Nem quer ir no Beleza Natural???
Eu posso lembrar exatamente de como ela arregalou os olhos naquele dia. Era um olhar assustado de "Mas filha, não vamos fazer seu cabelo? Você não vai se cuidar mais?" 
E o meu olhar cheio d'água respondia "Porque eu preciso fazer algo? O que tem de errado com o meu natural?"
Nesse momento eu entendi que era negra.

E por me enxergar negra, sinto a necessidade de relações afrocentradas, porque sinto a necessidade de estar perto de pessoas que compartilham as mesmas dores que as minhas.

O problema é que ainda dentro desse universo, eu tenho que lutar.

Eu tenho que lutar porque o movimento negro é sobre o homem negro, as mulheres negras são apagadas da história, e ai de mim se reclamar! Sou só uma feminista doida.

O problema é que ainda dentro desse universo, eu tenho que lutar.

Porque mesmo enxergando uma ligação muito mais forte e possível com o homem negro, ainda assim eles me ferem. Ainda assim eles preferem o "brother". Ainda assim eles cobram minha empatia, e não parecem preocupados em fazer todos os homens negros respeitarem as mulheres negras. Só querem a nossa empatia pro seu machismo e sua LGBTfobia.

O problema é que ainda dentro desse universo, eu tenho que lutar.

Porque tem homens negros que querem me ensinar como eu devo agir, que querem me ensinar que eu devo resgatar a ideia de Afrika. Como se Afrika fosse perfeita e o único problema no mundo (causador de todos os problemas) fosse racial. Sendo que em 2014, 650 mil mulheres foram estupradas na África do Sul e a mulher negra é silenciada hoje por homens que se dizem politizados. Esses números só aumentam e tem homem negros que nunca fizeram e não fazem nada pra mudar isso. Querem que eu seja a boa negra que cuida dos afazeres de casa, querem que eu tenha a condição de subalternidade ou submissão, ao entender que o que os olhos eurocêntricos veem como submissão na verdade é o local de poder da mulher negra na sociedade africana, em que servir comida aos homem, filhas/os e convidadas/os é um gesto de poder. Isso não me contempla.

O problema é que ainda dentro desse universo, eu tenho que lutar.

Porque ainda assim tem preta contra preta. Tem preta que briga comigo pra ficar do lado de branca, tem preta que briga comigo pra ficar do lado de homem negro.
Tem preta que quer me ensinar como lutar, "coitada, ingênua, ela tem auto ódio, é feminista, é movimento europeu, eu prefiro ficar do lado de caras negros, do que ficar do teu lado mana."

Eu só quero ser livre.

Paro de lutar. 

Sou ferida.

Volto a lutar.

Pelo o quê?
Por mim.
E por mais quem?
Pelas mulheres negras.
Aquelas que estão do lado de homens que abusam psicologicamente de você?
É.
Aquelas que estão do lado de homens que dizem que você é rainha, mas ficam com brancas?
É.
Aquelas que estão do lado de homens que querem que a gente entenda o problema deles, sendo que eles não estão preocupados em resolver a exploração contra a mulher negra mesmo depois de 150 mil anos?
É.
Então você não vai parar de lutar?
Não. Nem pelas mulheres negras que me desprezam, nem pelos homens negros que me oprimem, porque eu acredito em algo. Eu acredito e busco uma relação com o homem negro, eu tenho esperança. Assim como tenho esperança com as mulheres brancas que fazem parte da minha vida.

"MULHER PRETA, ESCOLHA SEU LADO. Lutar contra o racismo ou contra misoginia? Lutar pela liberdade "povo preto" ou por "todas as mulheres"? Servir ao homem negro ou às mulheres brancas? Escolha o menos pior.
Estamos sempre em posição servil nos 2 casos. Porque só é interessante a nossa contribuição desde que seja servindo. Estamos sempre sendo coniventes com o chicote das brancas ou com o murro dos pretos. Não há liberdade em lutar pelo seu opressor" - Página Negralistas


Bem vinda a solidão da mulher negra.