O Movimento Afro Vegano não existe a toa


Sempre em palestras, eu divulgo o trabalho do Movimento Afro Vegano, que pra quem não conhece é um movimento de pessoas pretas, que eu instiguei uns amigos um belo dia a criarmos.
Tudo começou por conta de uma situação racista, em uma loja vegana em São Paulo.

O veganismo se dividiu com esse caso. Muitas pessoas acharam exagerado o relato do rapaz negro, porque afinal "conheciam o dono" e veja bem, se o branco é seu amigo e ainda por cima é vegano, é impossível aceitar que ele tenha alguma atitude racista ainda que não perceba, né? É mais fácil dizer pro negro que ele está exagerando e alterando os fatos (é impressionante como a nossa sociedade tem dificuldades de acreditar numa vítima), do que pedir desculpas e tentar compreender porque tal atitude fez com que o cliente tenha se sentido discriminado. 
Por outro lado, muitas pessoas negras (todas do grupo Negras e Negros Vegans grupo exclusivo pra pessoas pretas) e muitas pessoas não negras com um mínimo de empatia, ficaram indignadas com esse ato racista.
E foi graças a esse estopim, que a gente se sentiu motivado a criar um movimento sólido.

Os espaços veganos, em sua grande maioria, sempre foram excludentes para pessoas pessoas negras, mas me diga, qual espaço não é? Até em África nós sofremos racismo.
A gente convive diariamente com problemas raciais, a gente lida e luta com problemas raciais dentro de outros movimentos. Com o veganismo, não foi diferente. Já tem um bom tempo, que negros veganos tem sido a pedra no sapato dos white vegan.

Antes tava fácil pros veganos classe média destilar todo o seu repúdio à religiões de matriz africana, com a premissa de que são religiões "atrasadas" e que por praticarem sacrifícios animais, devem ser proibidas ou até mesmo extintas.
É óbvio que se você é vegano, você não acha correto matar animais pra nenhum fim que seja, e isso me inclui, porque eu sou questionada o tempo inteiro se sou realmente vegana. Olha, por incrível que pareça eu sou vegana, eu tô lutando do jeito que eu posso por todos, e você? Tá combatendo especismo com racismo?  
Deveria pensar dez vezes, antes de assinar embaixo de uma lei racista, criada pela bancada evangélica que promete proibir sacrifícios religiosos (quantos interesses envolvidos, né não?).

Aí vão me dizer: Mas é uma conquista de cada vez. O mundo não é vegano, como vou conseguir conquistas na política, mesmo que no seu propósito não pensem nos animais e sim tem outros ideais?

A resposta é simples: é uma estratégia péssima.

Proibir sacrifícios de animais, que estrategicamente só vai atingir religiões de matriz africana, vai marginalizar essas práticas. Ou seja, se criminalizar o ato, praticantes da religião serão criminosos se continuarem fazendo, e eles vão continuar fazendo, porque é uma crença. Parecida com a de comer peixe na sexta-feira santa, só que a diferença é que o povo preto põe a mão na massa pelo o que acredita em sua religião.
E tem mais um dado, que muita gente não sabe. Mas a lei não quer só proibir, tem também uma proposta paralela de "regulamentar" tais atos. Ou seja, fazer uma espécie de sacrifício humanitário (sim, igual o nosso amado abate humanitário). Sabe o que vai acontecer se as casas de religiões afro usarem desse método pra "amenizar" a dor do animal? Vai ser IMPOSSÍVEL um diálogo com os praticantes da religião, porque eles estarão convictos de que o animal não sofre, então sua prática não é passível de questionamentos.

Você vê o quão horrível é a estratégia de achar que proibir é o caminho?

Imagina a seguinte situação:
Você se torna vegano, e conta pros seus pais que agora é ativista dos direitos animais. Você quer que os seus pais enxerguem o mundo como você enxerga. Mas como?
A sua atitude diante deste grande desafio é muito simples. Você faz cartazes escrevendo "assassinos" e começa a gritar palavras de ordem na cozinha, enquanto a sua mãe faz a janta. Depois, você queima todas as jaquetas de couro do seu pai, junto com as maquiagens testadas em animais da sua mãe.
Não satisfeito, porque eles ainda consomem produtos de origem animal, você vê se é possível legalmente proibir os seus pais de comerem animais.  

Imaginou a situação? Ok. A pergunta que eu quero fazer, não é se você faria isso, mas se você faz isso.
Você quer que seus pais morram? Você alguma vez já disse pros seus pais: se quer comer, então come o próprio braço, seus assassinos malditos!!!

Se você, durante o seu ativismo nunca atacou pessoas próximas a você, e acredita que pra elas serem veganas, não é através da proibição dos atos e sim da distribuição de material sobre os direitos animais (fornecidos por você mesmo) para que cada um possa fazer sua própria reflexão, por que diabos você se sente no direito de atacar e proibir uma mãe de santo de usar animais, como a tua família inteira usa? 
A sociedade inteira usa animais pro que bem entendem. Criminalizar esses sacrifícios só vai reforçar o racismo e os animais vão morrer do mesmo jeito, só que de forma ilegal.
Muita gente acha que se tiver a chance de proibir esses sacrifícios, vai estar salvando pelo menos algumas vidas. Não estaremos salvando vidas, não sejam tão inocentes. Os animais serão comprados para outros fins do mesmo jeito, abate de animais não é crime, entendam. Posso comprar uma galinha no mercadão de madureira. VOCÊS TEM NOÇÃO DESSA MERDA? O comércio não vai cair, não vai nem fazer cócegas, essas lojas não são financiadas por religiões de matriz africana. Vocês não estudam nada mesmo quando o assunto é racismo, devem achar que a mãe de santo todo dia compra um bode novo, NÃO GENTE, SÓ PARA!!!
Compactuar com uma lei racista dessa não é a mesma coisa que assinar uma petição a favor do fim de testes em animais. Não é uma coisa que vai ser geral pra todos, a lei vai ser seletiva. Você está sendo seletivo, tá criminalizando as religiões por um ato que você suporta em casa na mesa de jantar toda noite.

Pessoas praticantes de religiões de matriz africana podem através de material sobre direitos animais questionar seus hábitos alimentares e culturais, e essas pessoas que vão propor a diferença dentro dos espaços que elas convivem. Se nós, que somos a voz dos animais, o único movimento social onde a vítima não pode falar por si mesma (o que torna tudo mais difícil), agirmos estrategicamente e tentarmos um diálogo, a mudança será mais eficaz. Infelizmente veganismo é o único movimento  social onde as coisas não vão se resolver numa revolução (tiro, porrada e bomba). Não é um grupo social sobre o outro, é a porra do mundo inteiro especista contra nós. O mundo inteiro concorda em explorar animais pra fins que consideram justificáveis. 
Mas nós vamos apontar racismo sim, se o for, e isso não vai nos impedir de fazer ativismo, isso não vai nos impedir de conversar de pessoa pra pessoa.


Antes tava fácil pros veganos classe média, mas agora os negros estão incomodando, agora a gente problematiza evento que só acontece na zona sul, a gente reclama que não vê outros pretos nos mesmos ambientes, agora a gente não se cala.

E é aí que entra a importância do Movimento Afro Vegano. Ele existe, porque precisamos mostrar pro movimento vegano, que somos pessoas negras organizadas dentro desse rolê. E precisamos mostrar pro movimento negro, que somos pessoas negras veganas organizadas dentro desses espaços também.

É uma via de mão dupla. O movimento afro veganos se tornou necessário, para que pudéssemos ampliar e legitimar a nossa voz.
Porque o que vejo de pessoas negras não veganas simplesmente apagando a nossa luta aqui dentro do veganismo, não é brincadeira não.
Dizendo que veganismo é movimento de branco, logo negros não podem fazer parte dele e nós somos marionetes dos brancos...

Parece o mesmo papo de que feminismo é coisa de branco, logo não existe feminismo negro. Valeu fera, inviabiliza mesma as negras feministas acadêmicas que dão materiais maravigold pra gente.
Bell Hooks,  Audre Lorde, Patrícia Hill Collins, Lélia Gonzales, Sueli Carneiro, Chimamanda, aliás, Angela Davis que é feminista negra e vegana mandou um ABRAÇÃO!

Só quero dizer, que ainda estamos num enorme processo de construção. Precisamos terminar nossos manifestos, nossos materiais didáticos e bases informativas sobre o que é a MAV, e o que ela precisa se tornar. Mas enquanto isso ainda não está pronto, é importante ressaltar que não estamos de bobeira.
A gente tá resistindo e o Movimento Afro Vegano tá crescendo.